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Colunista

A cultura do relacionamento abusivo começa dentro de casa

ANDRÉA SEFRIAN (*) O Bemdito 28 de maio de 2019 18h30

É a família que propicia os subsídios afetivos e materiais necessários ao desenvolvimento e bem-estar dos seus componentes. Ela desempenha um papel decisivo na educação formal e informal de cada pessoa, e é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e morais, e onde se aprofundam os laços de solidariedade. A educação bem-sucedida da criança na família é que vai servir de apoio à sua criatividade e ao seu comportamento produtivo quando for adulto.

A família tem sido, é, e será a influência mais poderosa para o desenvolvimento da personalidade e do caráter das pessoas.

Porém, sabemos que hoje em dia, muitas vezes, a própria família tem sido a maior influência negativa sobre seus membros, principalmente porque o índice de violência doméstica vem aumentando cada vez mais no nosso país. A casa acaba deixando de ser um espaço de proteção e passa a ser um espaço de conflito, resultando na sua desestruturação e em adultos cada vez mais agressivos e desesperançosos.

A violência doméstica compreende as ações contra a integridade física ou moral, principalmente de mulheres, mas também de crianças, idosos e homens, dentro de casa. Ela é tão cruel para o desenvolvimento da personalidade de quem a sofre, que o rompimento de alguns vínculos, produz tanto sofrimento, que leva o individuo à descrença de si mesmo, tornando-o frágil e com baixa auto-estima. Esta descrença conduz ainda o indivíduo a se desfazer do que pode haver de mais significativo para o ser humano: a capacidade de amar e de se sentir amado, incorporando um sentimento desagregador.                          

O resultado do trauma causado por um ambiente familiar violento é bem evidente, onde é possível verificar que as vitimas dessa violência tendem a repetir padrões ou, em muitas situações, a criar crenças disfuncionais, tanto pessoais como familiares.

Um ambiente hostil pode levar as crianças a reproduzirem os modelos relacionais que conhecem (agressivos) com outros familiares ou, na maioria das situações, com os amigos e colegas da escola, e futuramente durante a vida mantendo relações abusivas, passando de vítimas à agressores.

Em sua maioria, os agressores/abusadores são homens, pois os espaços de socialização dos mesmos na sociedade criam modelos de masculinidade hegemônica, em que alguns homens não sabem lidar com a perda do seu “poder” para a mulher que vem conquistando direitos e liberdades. Como muitos aprenderam dentro de casa a não desenvolver a habilidade para o diálogo, acabam encontrando somente saídas violentas para os conflitos.

Para modificar esse quadro, é preciso uma transformação cultural. O que significa educar os meninos desde pequenos, mas sem ignorar os homens já formados dentro desta cultura. Para o último caso, a maior parte dos especialistas é a favor de espaços de reabilitação dos agressores, pois estamos inseridos numa cultura punitivista: a nossa maior preocupação é sempre a punição do agressor, sendo que a violência doméstica é uma questão muito mais complexa, estrutural, que não se resolverá caso a caso.

Precisamos de uma ampla conscientização da sociedade para transformarmos a cultura de subserviência da mulher e atacar o problema pela raiz. A maneira como a sociedade lida com a questão da violência, atinge e muito, a vida das vítimas. Precisamos pensar além do punir.

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(*) Andréa Sefrian (CRP08/12599) é Psicóloga Especializada em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUC-PR, atua há 10 anos como psicóloga clínica ( CLINIMED ), além de ser palestrante e prestar consultorias e treinamentos em instituições e empresas,  conciliando com o trabalho de Psicóloga do CRAS do Município de Xambrê, concursada há mais de 6 anos. Apaixonada pelo ser humano, acredita que sua missão de vida é trabalhar ouvindo histórias e construindo possibilidades de esperanças. 

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