UmuaramaSol com algumas nuvens. Não chove.14º27º
|

Umuarama

“Ser gari é sinônimo de ser guerreiro”, relata o coletor de lixo Kennedy Danilo

O profissional tem como parceiras de trabalho a mãe e a irmã

Foto: Ricardo Trindade/ OBemdito

ANDRESSA ZAFFALON O Bemdito 16 de maio de 2019 20h00

Correria do dia, peso dos materiais coletados, dores musculares, falta de reconhecimento da sociedade e do governo... essas são algumas características que fazem parte da rotina dos garis.

Nesta quinta-feira (16), celebra-se em todo o Brasil o Dia do Gari. Os profissionais são os responsáveis por coletar os resíduos nas ruas da cidade, deixando-as mais limpas. Mesmo tendo um papel ativo na sociedade, os coletores de lixo ainda se sentem pouco valorizados pela sociedade e pelo governo, como afirma o gari de Umuarama, Kennedy Danilo, de 26 anos.

Para o profissional, que atua neste meio há cinco anos, ser gari é sinônimo de ser guerreiro. “Nós temos que trabalhar expostos no meio de chuva, sol ardente, frio, calor e tempestade. Além disso, se deixamos de trabalhar em um feriado, a nossa atividade é dobrada no dia seguinte, porque não podemos deixar nenhum ponto da cidade sem limpeza. Mesmo se esforçando para fazer o melhor para a população, as pessoas ainda nos questionam o porquê que em feriados nós não fomos em determinado lugar coletar lixo, por exemplo. Essa pressão que nos desanima, porque também temos os nossos direitos trabalhistas. Somos humanos”, ressalta Kenedy.

Em Umuarama, cada gari trabalha por um período de 6h diárias, podendo ficar das 7h às 13h ou das 14h às 20h. Para cada trecho da cidade, quatro pessoas trabalham juntas. Duas atuando na rua, coletando o lixo; e duas dentro do caminhão. “Há pessoas que preferem coletar o lixo andando, outras correndo. Mas, não há regras. Eu prefiro correr”, conta o gari.

Uma das situações enfrentadas pelos profissionais que atuam na área é o desgaste físico. De acordo com Kennedy, os garis se machucam com frequência devido ao fato de carregarem pesos e estarem expostos às mudanças climáticas. “Eu já adquiri pneumonia enquanto trabalhava, mas, o problema de estarmos vulneráveis a dores musculares e às doenças é que precisamos entrar em uma fila enorme no SUS para ser atendido, porque não temos condições de pagar consultas particulares. Sem contar que, após 15 dias de atestado, nós perdemos o adicional de insalubridade que chega a quase R$ 500. Nesse caso, mesmo doente, muitos de nós preferem trabalhar machucados do que perder dinheiro ou deixar a equipe na mão”, alega Kennedy.

No entanto, nem só de dificuldades se vive atuando na profissão. Kennedy também afirma que o fato de ser gari lhe possibilitou novas amizades, companheirismo e a paixão por uma atividade que antes não era rotineira: a corrida. “Eu não tinha ideia do que era ser gari. No começo não curti muito a rotina porque logo na primeira semana em que entrei estava chovendo muito e eu ficava me questionando se aquilo deveria mesmo fazer parte da minha vida porque eu tinha que ficar molhado o dia todo. Mas, conforme os dias foram passando, eu me acostumei e hoje eu amo correr. Depois que entrei na profissão, comecei a praticar o atletismo e já até disputei campeonatos”, relata Kennedy, que decidiu realizar o concurso para ser gari por influência da mãe, que o aconselhou a tentar.

Kennedy Danilo juntamente com a mãe, Sueli Lopes

Para Kennedy, a atividade é gratificante por beneficiar a sociedade e ver as pessoas olhando o trabalho com carinho. “Apesar de ter gente que só observa o que não fazemos, há pessoas que nos tratam bem e proferem palavras de admiração à nossa profissão”, conta Kennedy.

Conforme o gari, para que a atividade fosse mais valorizada, o governo deveria garantir direitos e salários condizentes aos desafios da profissão. Além disso, a população também deveria se conscientizar de atitudes que, mesmo sem querer, causam problemas aos profissionais. “Por exemplo, deixar cacos de vidro ou materiais pesados nos prejudicam. As pessoas precisam ser educadas a olhar para o outro. O lixo que ela joga na rua será coletado por uma equipe profissional, que também está passível a se machucar. Já tivemos casos de garis que se cortaram com cacos de vidro ao coletar o lixo, o que indica que nossa profissão não é tão observada”, destaca Kennedy.

Atividade em família

Kennedy também possui duas pessoas da família que atuam na profissão de gari: a mãe e a irmã. De acordo com a mãe do rapaz, Sueli Lopes, de 50 anos, que trabalha há três como coletora de lixo, o fato de ser mulher exigiu uma preparação emocional grande para que ela conseguisse trabalhar com êxito na profissão.

“As pessoas me olham como se eu não fosse capaz de realizar o serviço que é feito prioritariamente por homens. Isso abalou minha mente porque eu comecei a me cobrar demais e até me questionava se eu realmente conseguia fazer o trabalho. Já cheguei até a chorar na rua, mas me acostumei. Sou capaz, sim!”, conta Sueli que decidiu entrar na profissão após notar que o tempo de trabalho exigido e o salário a ser recebido eram mais vantajosos do que a atividade que exercia antes sendo auxiliar de serviços gerais. “Ser gari não é ruim, é uma questão de costume e de estar disposta a enfrentar intempéries, desgaste físico e emocional. Mas, o fato de saber que a cidade fica limpa por nossa causa é gratificante”, finaliza Sueli.

Comente

Leia também

TUCCA
PIMENTA DOCE
LAB

Mais lidas

ACIU - SABADAO
CARRETÃO - Qualidade Dose Dupla
OFERTA VIVIAN 1
OFERTA VIVIAN 2