Começos e fins

Tenho certo encantamento com os começos e os fins. Começar e terminar algo me dá uma alegria a mais. Uma sensação de dever cumprido. Eu sei que a palavra dever pesa um pouco. Afinal ‘dever’ parece antônimo de ‘prazer’, mas não é por aí. Eu me sentia muito feliz encerrando as atividades letivas em dezembro, enquanto estava em sala de aula. Mas nem por isso eu gostava menos da expectativa de começar o ano letivo. E por isso, feliz ao findar a rodada desse ano da Biblioteca Itinerante, me lembrei do começo que foi tão bom. Sou grata pelo começo e pelo fim desse ano de trabalho itinerante que foi tão espetacular.

Gosto dos começos. Eles são tão novos. Tão incertos. Tão misteriosos. Até surpreendentes. Há neles uma esperança. Um desejo. Uma ilusão. Uma energia arrebatadora. Começos são sedutores por que desconhecemos o total conteúdo do que virá. Começos trazem projetos, perspectivas, desafios. Tudo isso é muito encantador. E o melhor de tudo: os começos podem acontecer quando e onde a gente quiser. Não é incrível? Uma amizade pode começar ao dar bom dia ao um novo vizinho, por exemplo. Ao cometer uma gentileza. Ou ao oferecer a frente em uma fila. São situações diversas que podem começar algo lindo.

Apesar de gostar dos começos não dá para negar que eles, às vezes, podem trazer medo e incerteza. Dependendo do que vem pela frente a gente teme começar. Mas, se o começo se faz necessário é preciso enfrentar.  Já tive começos muito assustadores. E não tive alternativa a não ser seguir em frente. Começos difíceis,quando necessários, requerem persistência e coragem. E é maravilhoso conseguir vencer ao final. Assim como o ditado diz: “o que foi difícil de passar, é doce de recordar”.

Gosto também dos fins. Eles trazem o encerramento. O fechar de cortinas. E apresenta o que foi possível realizar. Não é por acaso que sexta-feira é o dia favorito de tanta gente. Fins são necessários. O fim de um relacionamento ‘mais ou menos’ pode abrir a porta para um relacionamento excelente. A demissão de um emprego aparentemente estável pode ser o impulso necessário para correr atrás dos sonhos profissionais esquecidos. Um basta, finalizando uma situação insuportável, pode salvar a vida. É difícil de aceitar, mas, às vezes, os melhores começos chegam após os piores finais. É preciso enxergar.

Nem por isso deixo de saber que os fins podem ser doídos. Principalmente quando a gente não aceita e acredita que ainda havia muita lenha para queimar. Muitas vezes a gente se apega ao que nos faz mal e não aceita que termine. É só sofrimento, pois um fim adiado é terrível de se manter.

E o que falar dos fins antecipados?  Aqueles procurados ou acidentalmente encontrados que chegaram deixando todos pasmos? Tristes fins que nos fazem encarar que o fim faz parte da vida.  Mas, para que adiantá-lo ou atrasá-lo? Deixemos que chegue quando tiver que chegar. Acreditemos que terminou somente o que precisava terminar.

E terminou a rodada da Biblioteca Itinerante em 2017 que homenageou Maurício de Sousa. Ele e sua assessoria foram muito atenciosos. O próprio Mauricio agradeceu à Biblioteca através de um vídeo, de um cartaz e dos muitos gibis que enviou de presente. Foi um começo feliz de um projeto há muito sonhado e agora realizado. Terminou, mas o que ficou no coração das crianças não tem fim: a aprendizagem. E no meu coração ficou que a vida é cheia de começos e fins. Ninguém escapa deles. Tanto os começos como os fins podem ser bons ou maus. Os começos, por melhor que sejam, precisam deixar a vida seguir. E os fins, por mais que assustem, precisam se colocar na hora certa. E o meio? Apesar de não ter a expectativa do começo e nem a realização do fim, é ele que faz tudo valer à pena.

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Ângela Russi é escritora. Autora da coleção Vire a PáginaO Rio Sagrado e Papel Machê.  Cronista e palestrante Storytelling em educação, atendimento e empreendedorismo.

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