Libertação

Li essa semana a seguinte história: “Um homem veio até Al-Hallaj Mansoor e fez a pergunta:

O que é libertação? O sábio Sufi estava sentado em uma mesquita com belas colunas por toda parte. Ao ouvir a pergunta Mansoor dirigiu-se imediatamente a uma daquelas colunas e, segurando-a com ambas as mãos começou a gritar: – Ajude-me! O homem não compreendia o que estava acontecendo. Ele apenas tinha perguntado sobre libertação e o outro parecia louco. Mansoor, segurando a coluna pedia ao homem: – Por favor, ajude-me! A coluna está me segurando e não me solta, liberte-me! E o homem respondeu: – Você está louco! Você está segurando a coluna e não ela segurando você! Mansoor disse: Eu respondi. Ninguém o está amarrando.

O fim do ano de 2017 está aí. Fim de ano é uma excelente época para refletir sobre a vida, sobre como foi a vida, como vai a vida e como será. Ao ler essa história pensei em amarras. Principalmente naquelas que não nos amarram de verdade, mas que nos mantêm agarrados a elas mesmo que não percebamos. Tem amarras que são de estimação. Não é fácil livrar-se delas. Mas, quando sintomas aparecem mostrando que estimar o que aprisiona faz adoecer é hora de abrir mão. Soltar, largar, desvencilhar, abandonar, escolha o verbo que quiser, mas aja.

Vi muita gente se expressar nas redes sociais dizendo que quando esse ano acabar vai sentar, suspirar e dizer: “mano, que ano foi esse”? Medir o tempo trouxe esse benefício. A gente carrega conosco a esperança de que melhorará após o 1 de janeiro, após a formatura, após a sexta-feira, após o começo das férias, e melhora mesmo. Melhora por que a esperança nos dá alegria e a alegria melhora tudo. Pelo menos até esperarmos novamente o 1 de janeiro, a formatura, a sexta-feira, as férias.

Porém, antes de chegar essas datas que nos trazem esperanças a gente cultiva umas amarras que são como colunas a nos amparar. Essas colunas podem ser um emprego infeliz, um cônjuge violento, uma família abusadora, falsos amigos, gente interesseira, convicções arraigadas pela educação recebida, necessidade de estar sempre certo, carência afetiva, carência afetiva, carência afetiva...

A coluna mais agarrada é resultado da necessidade de ser amado. Não há prisão maior do que a necessidade de mendigar amor. Amor se conquista com naturalidade. Amor de verdade é libertador. Se não liberta não é amor. Afinal, “o amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade”. Passagem bíblica que deveria ser vivenciada constantemente, mas que só é lembrada quando a ouvimos em celebrações de casamentos.

Quem ama pratica a bondade, a verdade, e o que mais está escrito. Quem ama liberta e se liberta. Não há cobranças, não há ciúmes, não há competição. Há respeito e desejo de que o outro seja feliz, realizado, amado. Uma relação em que há cobranças, ciúmes, competição, não tem amor. Engana-se quem acha que essa relação amorosa é apenas entre casais. O amor precisa estar em todas as relações. Amizade, trabalho, família, igreja e onde houver seres se relacionando.  Inclusive a relação da gente com a gente mesmo. O amor próprio é libertador.

Nascemos para ser livres. Não somos diferentes dos animais que não suportam cativeiro e acabam adoecendo e morrendo. O problema é que criamos alguns cativeiros invisíveis. Ou abraçamos uma bela coluna e ali ficamos. Colunas são firmes, dão segurança, mas não saem do lugar e a vida é movimento.  Por isso, que não deixemos que a coluna seja responsável pelo nosso destino. Ser livre requer ousadia! Que nesse finzinho de 2017 a ousadia seja constante. E a alegria em escolher o melhor para si substitua qualquer coluna que exista.

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Ângela Russi é escritora. Autora da coleção Vire a PáginaO Rio Sagrado e Papel Machê.  Cronista e palestrante Storytelling em educação, atendimento e empreendedorismo.

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