Milagres do cotidiano

Eu vinha pensando sobre o que escrever nesse último texto do ano. Também é o meu último texto publicado no jornal Tribuna Hoje e no site OBemdito. Embora muita gente não acredite, escrever um texto por semana não é fácil, exige tempo. Principalmente por que eu realizo muitas outras atividades. O texto é a cereja do bolo semanal, mas não está muito fácil mantê-la. Por isso optei por desacelerar e decidi publicar, sem a pressão semanal, apenas nas redes sociais. No fundo estava sentindo falta de curtir o dia a dia com mais calma. Foi então que vi um vídeo do cantor Crioulo em que fala sobre enxergar os milagres que acontecem todos os dias na vida da gente. E apenas não os enxergamos por serem aquelas coisas banais que acontecem repetidamente.  Coisas simples como: ver as pessoas amadas com saúde, acordar, abrir os olhos de manhã, estar vivo, ver quem ama você ao seu lado te aguentando e te aceitando, estar com saúde, enfim, tudo o que deixa a gente feliz sem alarde e que por isso são milagres que existem no cotidiano. 

Entendemos o milagre como algo sobrenatural, inexplicável, admirável. Aquilo que supera a nossa compreensão. Não conseguimos explicar um milagre racionalmente. Ele é muito mais emocional do que racional. E, racionalmente, muitos esperam por um milagre que supostamente não acontece. Acontecer eles acontecem, mas não de acordo com as perspectivas esperadas. Expectativas geralmente exageradas. E por isso, infelizmente, nossa vida cotidiana, onde reside nossa sanidade mental, é vista com monotonia e totalmente desprovida de sentido. Uma pena! Pois é ali que tudo acontece. 

A vida cotidiana é a vida de todos nós, pois não há quem esteja fora dela. É nela que a gente é a gente, e pratica as atividades necessárias à nossa sobrevivência. Trabalhamos, nos divertimos, choramos e rimos. Nela convivemos com os conhecidos de todo dia e temos a possibilidade de fazer novos conhecidos. Nela fazemos muita coisa igual e por isso que, às vezes, parece tão repetitiva e aborrecida. Mas é nessa repetição cotidiana que encontramos paz.  Imagine se cada dia de vida fosse totalmente diferente? E se não tivéssemos pelo menos um pouco de certezas? Seria ansiedade pura. Até as montanhas russas não vivem só de sobe e desce. Sentimentos conhecidos dão um apaziguamento na alma. Sob a certeza do conhecido é que procuramos o novo. 

Na loucura do dia a dia é o cotidiano é o que nos mantêm sãos. Saber que vamos chegar em casa, tomar um banho, descansar, ou que vamos ao trabalho que sabemos fazer, ou que encontraremos amigos que são amigos há tempos, nos traz paz. Aquele friozinho na barriga que sentimos diante do desconhecido é muito bacana. E é bacana por não ser constante. As aventuras que vivemos são maravilhosas por serem aventuras eventuais. Só o James Bond e outros fortões do cinema para dar conta de viver intensamente e perigosamente 24 horas interruptas.  Até os fortões da vida real precisam parar e repousar de vez em quando e ficar junto com quem tem uma convivência afetuosa no cotidiano.  

O vídeo chamou minha atenção por que gosto do meu cotidiano. Gosto tanto que até já falei da diferença entre ele e a rotina num texto chamado Lugar Comum de 2009.  Penso que valorizar o que vivemos no dia a dia e aqueles que estão ao nosso lado diariamente é reconhecer um milagre por mais que não se acredite nele. Nossa fé se fortalece quando entendemos que tudo renasce com a força dos milagres cotidianos.

Desejo que 2018 seja um ano cheio de milagres do cotidiano. Que nossos olhos vejam quem é companheiro de jornada de verdade. E que possamos ser gratos, retribuindo essa presença amorosa e assim ser, que sabe, o milagre para alguém. 

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Ângela Russi é escritora. Autora da coleção Vire a PáginaO Rio Sagrado e Papel Machê. Cronista e palestrante Storytelling em educação, atendimento e empreendedorismo.

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