TRÊS ROSAS DE JARDIM

Uma amiga postou uma foto de rosas que ela mesma cultiva em seu jardim. Achei tão lindas. Escrevi para ela que aquelas rosas me lembravam do jardim da minha mãe. Ela respondeu que a ideia do seu jardim era fazer um jardim de vó. Coincidentemente, eu havia ganhado três rosas de jardim.  Então, você pode se perguntar: mas todas as rosas não são de jardim? Não! As rosas que a gente compra nas floriculturas são cultivadas em estufas para esse fim: serem compradas. Elas são mais elegantes, têm cabos longos, duram mais. As rosas cultivadas em jardim são mais frágeis, mais selvagens, mais simples.  Selvagens, por que não foram domesticadas em estufas. Crescem como querem, se querem, e se desmancham ao vento. O objetivo de quem as cultiva não é o comércio, nada de vendê-las, apenas querem ter o prazer de tê-las embelezando seu jardim.  Rosas de jardim ficam ali, aos olhos de quem quiser, para encantamento diário.

Hoje quase não se vê jardins a não ser os planejados e executados por paisagistas. Rosas de jardim, então, veem-se muito menos. E eu aqui pensando em quanto perdemos ao parar de cultivá-las. Por que paramos? Cultivar um jardim pode ser uma terapia, mas requer investimento de tempo. E isso é algo que anda escasso. Mas tempo é a gente que faz, podem dizer alguns. Será? Adélia Prado escreveu: “Não tenho tempo algum, porque ser feliz me consome”. Se a felicidade é quem toma o nosso tempo, tudo bem. Mas, se gastamos nosso tempo com o que não nos traz felicidade alguma, não está na hora de rever em que investimos o nosso precioso tempo?

Jardim é como a vida, o Éden não está na história da criação à toa. Há que se ter um cuidado diário.  Cuidar de um jardim, e da vida, dá trabalho. Mas, quando a gente deseja de verdade alguma coisa, o trabalho torna-se prazer. Desejo e prazer, apenas quem se conhece muito bem se permite aproveitar. Quem se conhece não têm medo de tocar a terra, de se sujar, pois o jardim vale à pena. Quem se conhece sabe o que lhe agrada e não tem medo, nem vergonha de correr atrás. Quem se conhece gosta de semear e acompanhar o desabrochar. Entre o semear e o desabrochar existe o tempo que pode ser feliz ou não. Se for tempo infeliz, usa-se a estratégia da aposentadoria para dar conta de aguentar. Afinal, com tempo de sobra faremos o que quisermos. Será? Esperar pode ser um risco. A vida é hoje.  O que eu estou protelando pode nem chegar.  

E eu pensando aqui em fazer um jardim. O que me impede? Como ele seria? Plantaria dálias, margaridas, lírios, beijos e rosas? Rosas de jardim. Certamente não teria muita estética planejada. Gosto de liberdade. E deixaria brotar algumas plantas sozinhas. Gosto de iniciativa. Ervas daninhas eu retiraria. Eu sei que são plantinhas. Mas elas desejariam tomar conta do meu jardim e isso eu não posso permitir. A idade e a experiência me fizeram aprender sobre não permitir aquilo que invada o meu espaço desrespeitando os meus limites, que apesar de invisíveis, existem. Erva daninha precisa ser arrancada enquanto é possível.

Ganhei três rosas vermelhas de uma pequena leitora de um Centro de Educação Infantil que visitei na semana passada.  Ela estava ansiosa para me dar o buquê envolto em papel celofane e amarrado com uma fita. Uma fofura! Perguntei de qual jardim eram aquelas rosas. Ela respondeu que eram do jardim de sua avó. E sua avó deixou você colher essas rosas? Perguntei.  Ela disse que a própria avó tinha colhido para ela. Lembrei-me de minha mãe que sempre teve jardins com rosas que poderiam ser colhidas sem problemas. Ela as cultivava. O jardim era dela. Poderia decidir sobre, pois quando a gente coloca a mão na terra sem medo, quando o jardim nos pertence, o desejo se torna realidade e a gente vira dono de verdade do jardim.  Já nem sei mais se falo de jardim ou de vida. Bem, você decide. Claro, se o jardim for seu.

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Ângela Russi é escritora. Autora da coleção Vire a PáginaO Rio Sagrado e Papel Machê.  Cronista e palestrante Storytelling em educação, atendimento e empreendedorismo.

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