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Saúde

Em nove meses, 2019 registra mais suicídios do que os últimos cinco anos em Umuarama

11 suicídios já foram registrados oficialmente na cidade. Conheça fatores de risco, como ajudar e o relato de uma umuaramense que tentou o ato, mas conseguiu sobreviver

Foto: Arquivo pessoal

ANDRESSA ZAFFALON O Bemdito 15 de setembro de 2019 19h40

 “Eu tinha um sentimento enorme de desesperança. Sentia meu peito apertado e um peso enorme nas costas. Eu acreditava que nada daria certo, me sentia inútil e que não faria falta para ninguém. Mas eu não queria exatamente desistir da vida, eu queria eliminar aquele sofrimento interior”. Esse é o relato de Vânia Meneghelle, umuaramense, de 32 anos, que tentou o suicídio há três anos.

Assim como 90% da população que chega a se suicidar, Vânia havia sido diagnosticada com depressão na época em que tentou se matar e já tinha quadros de autolesões, onde ela afirma que se cortava para deslocar a carga da dor do emocional para o físico. “Eu tinha dificuldades para resolver problemas e para aceitar algumas situações. Aconteceu comigo um fato que me deixou bem desestabilizada, a partir disso, tudo parece que começou a se desmoronar e eu não conseguia mais ter esperança para vida”, conta a mulher, que atualmente é vendedora autônoma em Umuarama e mãe de um filho de 11 anos.

O caso relatado por Vânia, infelizmente, não é raro. O suicídio é considerado um problema de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida no mundo e o suicídio é a segunda maior causa de jovens mundialmente. Em Umuarama, somente nos nove primeiros meses deste ano, 11 casos foram registrados. O número representa mais do dobro que notificado em 2015 (5 casos em todo o ano) e do que em 2017 (5 casos durante todo o ano). Além disso, os nove meses deste ano registraram mais suicídios do que em todos os meses dos outros anos. Em todo o ano de 2018, 10 casos haviam sido registrados. Em um período de cinco anos, 45 casos de suicídio foram oficializados. Esses dados são do Sistema de Mortalidade (SIM) e foram repassados pela assessoria de comunicação da Prefeitura.

O que representa o suicídio?

Para a psicóloga, especialista em saúde mental e mestre em teologia, Gisele Martins, o suicídio representa os três d’s: desespero, desesperança e desamparo. E esse aumento de casos registrados em todo o mundo significa que o estilo de vida da maioria das pessoas não vai bem. “A maior parte dos suicídios acontece após o acometimento da depressão. Então o que precisa ser mais visado é esse tratamento da depressão. O estilo de vida das pessoas é baseado na correria, no consumismo, na centralidade do trabalho. A pessoa que não tem tempo para si, para pensar a respeito de suas escolhas e de ter hábitos saudáveis, como comer adequadamente, dormir bem, fazer atividade física e ter o apoio emocional necessário pode adoecer e, se não cuidar, ele pode vir a ter a vontade de querer se suicidar”, diz a psicóloga.

O problema, para a psicóloga, é que o suicídio e as doenças mentais ainda são vistos como tabus pela sociedade. Isso faz com que muitas pessoas não se sintam abertas para conversar e para contar as aflições da vida. “O que as pessoas precisam entender é que é necessário falar sobre os sentimentos desde criança. Elas precisam ser orientadas a ter o comportamento de não ficar com receio do julgamento. Uma pessoa que consegue se abrir, consegue ser mais ouvida e, consequentemente, pode obter mais apoio”, ressalta a psicóloga.

V

Vânia Meneghelli é vendedora; ela tentou o suicídio há três anos

Como ajudar?

Uma outra característica ressaltada com importante para evitar que mais pessoas se suicidem é o uso da cautela e do entendimento nos diálogos. “Quando uma pessoa comenta algo de depressão, o ouvinte não deve dizer que ‘é falta de Deus’ ou algo como ‘nossa, mas tem tanta gente querendo ter uma vida igual a sua’. Isso só piora o quadro da pessoa que está doente, porque a depressão não é igual a tristeza. A tristeza é um dos sintomas da depressão. E o que é necessário entender é que não é o que ela tem que faz diferença nesses casos, mas é o que ela sente”, afirma Gisele.

As pessoas com potencial suicida geralmente têm atitudes que podem ser vistas com atenção, como o comportamento agressivo, isolado, negativo e desesperançoso. Algumas dessas características estavam presentes na vida de Vânia há três anos, como o caso do isolamento e a negatividade. “Eu não queria sair de casa e me via cercada de pensamentos ruins, que diziam que eu não iria conseguir várias coisas do meu dia a dia e que ninguém me amava”. Foi com esse pensamento que a mulher decidiu se suicidar. O OBemdito não vai citar detalhes de como Vânia tentou o ato, por seguir as recomendações da OMS. O órgão afirma que os procedimentos de suicídio devem ser evitados de serem divulgados para evitar que pessoas com ideação suicida repitam o mesmo método.

Na época em que tentou o suicídio, o ex-marido de Vânia chegou a socorrê-la e a dizê-la que ela precisava de ajuda. “Ele ficou me olhando por um tempo, me estendeu a mão, e me falou que eu precisava de um auxílio médico. Foi quando eu caí em mim. Então ele ligou para o médico que me atendia e eu fui procurar ajuda”, declara a mulher.

A atitude do ex-marido de Vânia é o que a psicóloga Gisele alega que deve ser feito quando alguém apresentar comportamentos suicidas. “A pessoa tem que ouvir, não julgar e dar o apoio necessário para a pessoa em crise procure um psicólogo ou psiquiatra. Esses profissionais são qualificados para atender esse tipo de situação. Então o mais importante é que ela preste apoio para que o ente querido consiga um auxílio profissional”, cita Gisele.

Gisele Martins é psicóloga e especialista em saúde mental

Fatores de risco

Segundo a OMS, alguns fatores são considerados de risco para quem possui ideação suicida, mas é válido lembrar que o suicídio é complexo e multifatorial, ele não é derivado de uma causa única. “É incorreto dizer que a pessoa se suicidou porque o namorado terminou com ela, por exemplo. A pessoa que quer se suicidar não vê mais esperança em nada e tem uma série de fatores acumulados que colaboraram para isso, como relações familiares, vida no emprego... é uma falta de desesperança completa. Mas é preciso ressaltar que o que ela quer tirar não é a vida; é a dor. Ela só confunde as coisas”.

As situações de risco que podem tornar as pessoas vulneráveis ao suicídio, segundo a OMS são: o nível sócio econômico e educacional baixo do indivíduo; estresse social; perda de emprego; traumas (abuso físico e sexual); problemas com o funcionamento da família, relações sociais e sistema de apoio; perturbações mentais (depressão, transtorno de personalidade, esquizofrenia, abuso de álcool e drogas); perdas pessoais; baixa autoestima ou desesperança; falta de controle da impulsividade e comportamentos autodestrutivos; baixa competência para enfrentar problemas; dor crônica e doença física; exposição ao suicídio de outras pessoas; acesso aos meios para cometer o suicídio; acontecimentos destrutivos e violentos.

Os enlutados pelo suicídio, considerados como “sobreviventes” também devem ter atenções especiais. Para a psicóloga Gisele, uma pessoa que possui um ente querido que tenha se suicidado sofre muito com a perda. “Ela leva um sentimento de culpa enorme e fica se perguntando o que fez de errado. Isso faz com que ela mesmo tenha desesperança e pode levá-la a também ter o desejo de tirar a própria vida. Por isso, o acompanhamento psicológico e psiquiatra é essencial”, acrescenta Gisele.

Busca ativa por ajuda

A rede pública municipal de saúde oferece psicólogos através dos postos de saúde. Para isso, deve-se ir até a unidade básica de determinado bairro. A partir disso, o paciente pode ser encaminhado ao Serviço de Atendimento Psicológico (SAP), que atualmente conta com sete psicólogos. O serviço é gratuito, mas exige uma espera devido à alta demanda. A procura por um psiquiatra também se faz essencial, a fim de que medicamentos sejam prescritos para amenizar sintomas de ansiedade e depressão.

Esses serviços foram essenciais para a superação de Vânia. Hoje, ela frequenta terapia e já utilizou também medicamentos. Outro fator que foi determinante para a mudança de vida de Vânia foi o apego a Deus e a participação em grupos de apoio. Depois da tentativa de suicídio, ela decidiu que iria tentar mudar a forma de ver as coisas “Eu estou tentando ao máximo enxergar que eu sou maior que minha depressão. Não estou curada da doença, mas estou no progresso para caminhar, viver cada minuto intensamente e ajudar quem eu posso. O suicídio precisa ser debatido, então eu não tenho vergonha de dizer que eu tentei, mas sobrevivi e hoje quero uma vida nova!”, completa a vendedora, que também participa de corridas no dia a dia como forma de aliviar a tensão que sente.

Vale ressaltar também que em situações de crise, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece serviço gratuito 24 horas por dia, para escutar e fornecer ajuda às pessoas que estejam passando por situações difíceis. Para acionar o serviço, ligue no 188.

Vânia luta dia a dia para manter a mente saudável e conseguir aproveitar a vida da melhor forma possível, o esporte contribui nesse processo

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