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Colunista

Provocação: Haverá Saúde mental na volta às aulas?

A psicóloga Danielle Barreto discute como o início das aulas pode ter impacto na saúde mental das pessoas

Foto: Arquivo pessoal

DANIELLE BARRETO* O Bemdito 20 de fevereiro de 2021 17h45

Estamos testemunhando já no início de 2021, além do aumento significativo de contágios e mortes no Brasil e o surgimento de outras variantes do Corona Vírus, algumas importadas da Europa e outras nacionais, um movimento de retorno de toda comunidade escolar brasileira, de forma presencial.

Este convite de retomada presencial, mesmo que de forma híbrida (grupos menores de estudantes nas salas em rodízio de semanas), nos lança a imaginarmos como será o dia a dia de fato neste cenário.

Neste processo de tentar imaginar como será o cotidiano da comunidade escolar no formato proposto, me veio imediatamente a problematização sobre as escolas e suas múltiplas funções. Rubem Alves assim escreveu: “Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. (...). O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”. Imaginar que o espaço escolar deverá estar necessariamente sempre asséptico, com distanciamentos, sem abraços e trocas diversas, me conduzem às problematizações sobre o que afinal estamos promovendo em saúde mental para estas pessoas que vivem e convivem com o território escolar. Estamos conscientes de que os encontros, as aulas, os intervalos e o convívio não serão promovidos em favor dos voos, mas sim das restrições, da escassez de trocas afetivas e no aumento considerável do controle sobre os modos de ocupar os espaços de aprender a aprender?

A pandemia nos fez perceber que a tecnologia não substitui o afeto e a afetividade, e também nos aproximou de cenas de vulnerabilidades familiares e sociais diversas, nos colocando num mesmo oceano com equipamentos diferenciados para continuarmos a navegar vivos.

A vivência em pandemia nos propiciou uma certeza coletiva - não somos ninguém isolados em nossas verdades. Esta tomada de consciência vem de encontro a difícil tarefa de prevenir e promover saúde mental, que se define a partir de múltiplos fatores sociais, psicológicos e biológicos, que irão determinar o nível de saúde mental de uma pessoa. Por exemplo, as pressões socioeconômicas contínuas são reconhecidas como riscos para a saúde mental de indivíduos e comunidades. Uma saúde mental prejudicada também está associada a rápidas mudanças sociais, desastres ambientais, situações traumáticas, condições de trabalho estressantes, discriminação de gênero, sexualidade, exclusão social, estilo de vida não saudável, risco de violência, problemas físicos de saúde e violação dos direitos humanos, pandemias; etc. O objetivo da organização escolar e de sua gestão de se propor a assegurar a comunidade escolar, que não haverá contágio pode ser um disparador perigoso para o agenciamento de sofrimento psicossocial amplificado.

Precisamos de um processo de sensibilização intenso entre e com a comunidade escolar, permitindo que todos experimentem aos poucos este território de outras formas, com outras interações, com muitos protocolos de segurança sanitária e nenhum incentivo de convivência coletiva. Seria importante nesta sensibilização construirmos dispositivos que atenuassem os impactos dessas novas convivências, com intuito de garantir prevenção e promoção de saúde mental.

Tendo em vista que estaremos na escola para nos fazer presentes em um espaço físico totalmente preparado para nos distanciar, acredito que para criarmos dispositivos de prevenção e promoção de saúde mental, será imprescindível a implicação coletiva de auto cuidado e de respeito aos protocolos sanitários de convivência em pandemia. Não podemos apenas esperar que a direção e a equipe escolar sejam unicamente responsáveis pela saúde da comunidade escolar, esta responsabilidade é obrigatoriamente de todos nós.

                                                                                                                  

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*Daniele Barreto é doutora em Psicologia e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (2016). Experiência docente em Cursos de Psicologia e Medicina. Tem experiência em atendimentos clínicos com ferramentas conceituais da Esquizoanálise, Membro do grupo de Pesquisa: Psicologias, coletivos e Cultura Queer (PsiCuQueer) na Unesp/Assis SP.

CRP 08/28879

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