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Refletir sobre racismo estrutural e agir é urgente no país, diz ativista

Dia da Consciência Negra atenta para a perpetuação e naturalização de uma 'herança maldita' do período colonial

Bruno Camargo destaca o nocivo papel de entes governamentais no processo 'genocida'
Bruno Camargo destaca o nocivo papel de entes governamentais no processo 'genocida'
Foto: Arquivo pessoal

REDAÇÃO O Bemdito 21 de novembro de 2020 11h33

O Dia da Consciência Negra é celebrado nesta sexta-feira (20). Feriado nos estados do Rio de Janeiro, Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Roraima, além de vários municípios, como São Paulo, a data marca a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares e símbolo da resistência contra a escravidão.

Para o cientista politico e ativista Bruno Camargo, formado em relações internacionais pela Unila (Universidade Federal da Integração Latino Americana), a data é oportuna para refletir, principalmente, sobre o racismo estrutural, um traço marcante da realidade nacional.

"O racismo estrutural é toda naturalização de ações e hábitos, falas e ações incutidas no cotidiano social que promovem de alguma forma, direta ou indireta, a segregação e o racismo, baseado em ações conscientes e inconscientes, que naturalizam a violência e a depreciação do negro, não só como indivíduo mas também como agente social", explica.

"A estrutura racial se baseia numa supremacia, onde uma raça menospreza a outra, não somente nos seus direitos cívicos, mas também em todo o seu escopo sociológico, ou seja, uma vez que a raça se estrutura como dominante, seu objetivo é privar a outra de todos os meios que lhe cabem, seja através da inferiorização física e mental, seja através da resignificação. Um exemplo é a alegação subjetiva a tudo que é preto. Negro é ruim, branco é bom, negro significa obscuridade, branco luminosidade", pontua.

O racismo estrutural se baseia na construção de um imaginário coletivo, onde a raça negra está calçada em estereótipos racistas irreais, que por si só alimentam uma gama de pensamentos racistas que permeia a sociedade. "Crescemos com Chico Anisio facendo black face na tevê dos anos 80 e 90, com negros malandros e preguiçosos ou negras representadas como mulheres com apetite sexual infinito. Isso gerou uma consciência coletiva racista, perpetuando o modelo racial branco dominante na sociedade ocidental. Uma sociedade que vê no racismo a legitimidade da violência a esses corpos e vidas negras", analisa.

Contemporaneidade

A seu ver, a contextualização do racismo estrutural no Brasil contemporâneo perpassa duas grandes esferas: a pública e a privada. A segunda deriva de todo e qualquer estereótipo, indo desde um negro ocupar postos de trabalho subalternos, como diarista e porteiro, à relação de negros com a criminalidade, prostiuição, violência, inferiorização de uma forma geral.

"Temos casos recentes, como o do menino Miguel, filho de uma empregada doméstica, que morreu por conta na negligência da patroa branca. Remete ao racismo estrutural herdado do Brasil colônia, perfeitamente estruturado no quadro 'Um Jantar Brasileiro' (1827), de Debret", pondera. 

"O caso do menino Miguel pode ser entendido como apenas mais uma releitura da clássica obra", entende, exprimindo, simultaneamente, "a banalização da vida negra e principalmente a relação desumanizada entre os senhores brancos e seus serviçais negros".

A esfera pública, por sua vez, seria canalizadora de todas as confirmações de um Brasil Colônia, incrustrado em um estado que se firmou como racializado e genocida. "O estado brasileiro teve em sua cruzada o desafio de perpetuar essas políticas coloniais, desde privar o acesso dos negros à faculdade à violência policial, que demonstra ser o principal agente do genocídio negro. O estado se consolida a partir da prerrogativa de que vidas negras são sim inferiores", observa.

"Temos a morte de uma vereadora negra no Rio de Janeiro, democraticamente eleita, impedida de participar do poder político e inúmeras mortes oriundas dessa política que visa compelir toda e qualque ascensão negra ao poder. Marielle Franco teve, em grande parte dos apoiadores do atual goveno federal, uma voz que a criminalizou e difamou, ódio injustificado que perdura mesmo após a sua morte", ressalta.

Um 'capataz' em Palmares

O cientista político considera essencial compreender o papel do presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Carmargo, no processo. A entidade pública brasileira é vinculada ao Ministério da Cultura.

"Sua aparente luta para desconstrução do legado negro corrobora uma agenda política instaurada que tem como grande objetivo a resignificação das narrativas históricas, seja ela a do enaltecimento da ditadura ou, como no casdo da Fundação Palmares, a relativização dos processos racias e principalmente escravocratas. A agenda política bolsonarista elegeu seu 'capataz', com a infame missão de conter todo e qualquer avanço negro. Isso tem precedentes no fascismo e no nazismo", diz.

Reflexão e ação

"O Dia da Consciência Negra é um marco histórico, que remete à quebra da narrativa branca sobre o movimento negro e pontua o início de uma narrativa negra, que não pode ser subjugada e ocupa a vanguarda de sua própria libertação, da sua própria história. Entender isso é compreender, sobretudo, que a data é um protesto a toda essa estrutura de valores, não só às atrocidades, à história que não foi contada. Ao mesmo tempo, é a tentativa mais singela de chamar a atenção dos que detêm o privilégio racial para os problemas ainda existentes na sociedade brasileira,  para que se abram para um diálogo franco sobre as cicatrizes profundas que nossa história tem a esse respeito", complementa Camargo.

 

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